Roseau, Dominica, 26 de janeiro de 2026 (IICA) – Vanya David nasceu e cresceu na costa oeste de Dominica, em uma comunidade onde a pesca e a agricultura continuam marcando a vida cotidiana. Seu pai era pescador, sua mãe trabalhava a terra, e esse entorno familiar moldou desde sempre sua visão sobre a alimentação, o trabalho rural e a autossuficiência. Hoje, resume isso em uma ideia que repete com convicção: “O que você precisa comer é o que você cultiva”.
Além de manter uma pequena produção para sua família – na qual cultiva dasheen, um tubérculo amplamente consumido na ilha, conhecido também como taro ou malanga; cush cush, uma variedade local de inhame de textura seca; cenoura e repolho – Vanya ocupa um papel central na organização comunitária.
Ela é Presidente do Dominica National Council of Women, entidade que há décadas promove o desenvolvimento em toda a ilha, com foco no respeito pelas pessoas e nos direitos das mulheres rurais.
Formada como trabalhadora social, lidera programas de prevenção e respostas a crises, ações de fortalecimento comunitário e projetos conjuntos com entidades como o Ministério da Agricultura de Dominica e o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), especialmente em capacitação técnica para mulheres rurais.
Por seu trabalho que promove a autossuficiência das mulheres do campo de seu país e por sua mensagem constante para destacar os valores de uma alimentação saudável proveniente da natureza, Vanya foi reconhecida como uma das Líderes da Ruralidade das Américas pelo IICA; por isso, ela receberá o Prêmio Alma da Ruralidade, criado pelo organismo hemisférico para distinguir pessoas que fazem a diferença em favor da segurança alimentar e nutricional na região.
Estufas e ajuda internacional
Seu olhar sobre a agricultura espelha o que já viveu. Conhece as dificuldades concretas enfrentadas por muitos produtores de Dominica, em particular pelos idosos. O acesso às estradas rurais é, segundo diz, um dos principais obstáculos: “Você colhe seus produtos, junta todos na propriedade rural, mas tirá-los de lá é o problema”. A falta de transporte acessível encarece os custos e limita a venda em mercados de outras zonas da ilha. Essa situação afeta sobretudo as mulheres que buscam independência econômica, mas dependem muitas vezes de terceiros para chegar a suas propriedades ou movimentar sua colheita. Em algumas comunidades, devem caminhar longos trechos ou contratar transporte em motocicleta ou camioneta, algo que incide diretamente na segurança, no tempo disponível e na continuidade de sua produção. Para Vanya, reforçar esse acesso é indispensável.
O clima é outro fator decisivo. Dominica é um país onde o sol, a chuva, as secas ou os ventos fortes podem mudar em pouco tempo e cada variação impacta na produção. Por isso, explica, deve-se planejar com atenção o que semear, em que zona e em que momento.
Com apoio do Ministério da Agricultura e do IICA, nos últimos anos deu-se início à introdução de estufas para melhorar a resiliência de alguns cultivos. Todavia, nem todas as áreas são aptas para sua instalação, o que leva a projetos a serem implementados por etapas: primeiro, em zonas acessíveis; e depois, se os resultados indicarem, em outras comunidades. Nesse processo, também se avalia quais as variedades que respondem melhor às novas condições. Vanya insiste em que não se trata só de semear: trata-se de entender o comportamento do clima e antecipar-se.
O trabalho da organização que ela preside também alcança o setor pesqueiro. Em colaboração com instituições multilaterais, visa capacitar as mulheres em técnicas mais seguras e eficientes para entrar nos barcos, manejar o equipamento necessário e assegurar práticas adequadas de conservação do pescado. O transporte volta a ser um fator central: muitos pescadores da costa devem deslocar-se para zonas montanhosas onde estão os compradores, o que exige um planejamento cuidadoso de custos e preços. Para David, encontrar esse equilíbrio é fundamental para que a renda seja sustentável e os jovens vejam na produção rural uma oportunidade real.
Escolher os produtos da horta
Quando Vanya fala dos jovens, aparece uma mistura de preocupação e oportunidades. Muitos querem dedicar-se à agricultura, diz a dirigente comunitária, “mas precisam de terra própria, financiamento inicial e ferramentas adequadas”, afirma. A disponibilidade tecnológica também influi: manejar sistemas de irrigação, usar estufas ou ter acesso a capacitação requer recursos e acompanhamento. Em sua própria família, alguns de seus filhos continuaram vinculados ao campo, enquanto outros escolheram a educação ou a contabilidade. Mas todos cresceram com o “background agrícola”, que ela considera fundamental para a compreensão do valor da produção local.
Sua visão sobre a alimentação é direta. Vanya compara os produtos frescos das propriedades rurais com as opções processadas que predominam nas cidades.
Essa conduta, analisa, resume uma tendência crescente: pessoas ocupadas que optam pelo mais rápido, embora nem sempre o saudável. “A gente vive às pressas e compra o que é fácil. Mas o fácil nem sempre é bom”, diz David. E resume esta ideia com outra de suas frases-chave: “Mais produção de alimentos locais significa melhor nutrição”.
Sabe também que a agricultura combina momentos de satisfação com outros de grande dificuldade. “A agricultura pode ser um prazer, mas também um desafio”, explica. O prazer aparece quando os produtores têm acesso a seu terreno, recebem capacitação, contam com ferramentas básicas e podem controlar seu tempo. O desafio surge quando a infraestrutura falha, quando as chuvas ou a seca obrigam a replantar ou quando o transporte torna inviável uma venda que parecia segura.
Ainda assim, não dúvida em recomendar esta forma de vida. Para ela, trabalhar a terra, mesmo em pequena escala, oferece um alimento mais saudável e uma relação mais equilibrada com o entorno. E resume isso com a clareza que atravessa toda sua experiência rural: “É melhor cultivar o que você come e comer o que você cultiva”.
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