Cerca de 20 municípios do Semiárido baiano serão contemplados pela iniciativa, além de 13 no Semiárido de Sergipe. O projeto espera alcançar cerca de 1.200 agricultores e agricultoras familiares no Brasil.
Por Acsa Macena
A baixa diversidade de variedades de sementes crioulas, especialmente de milho, os baixos níveis de produtividade no campo e o avanço da contaminação por sementes transgênicas têm sido apontados como desafios centrais para a agricultura familiar no Semiárido da Bahia, afetando a conservação da agrobiodiversidade e a autonomia das comunidades agricultoras.
Diante desse cenário, entre os dias 11 e 12 de março, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, instituições de pesquisa, agricultores e agricultoras se reuniram no município de Cícero Dantas, Bahia, para o primeiro diálogo presencial e de planejamento do projeto trinacional Raízes Agroecológicas na Bahia.
Estiveram presentes as equipes da Embrapa Tabuleiros Costeiros e da Embrapa Cerrados, do Movimento Camponês Popular de Sergipe (MCP-SE), da Unidade de Gestão do Projeto (UGP), coordenada pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), assim como do consórcio de organizações sócias do projeto na Bahia: o Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP), Associação Regional de Convivência Apropriada ao Semiárido-ARCAS (ARCAS) e Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), junto à Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa da Bahia (CPC-BA), em um momento de diálogo e construção em rede.
No Brasil, inicialmente o projeto envolve uma área de atuação que abrange mais de 33 municípios em Sergipe e Bahia, com ações voltadas à recuperação de sementes crioulas, fortalecimento de sistemas agroecológicos e valorização de guardiãs e guardiões de sementes.
Segundo Adriana, da Arcas, o projeto busca responder a desafios estruturais da agricultura familiar na Bahia: “Estamos iniciando oficialmente as atividades desse projeto, que para nós reúne grandes objetivos na Bahia. É uma área de atuação que envolve diferentes organizações comprometidas com o fortalecimento da agrobiodiversidade”, afirmou.
Para Cristiane Otto Sá, pesquisadora da Embrapa Tabuleiros Costeiros e coordenadora do projeto pela instituição, a integração entre diferentes atores é fundamental: “Temos um trabalho conjunto de integração entre organizações, agricultores e instituições de pesquisa para fortalecer sistemas produtivos diversos e adaptados às realidades locais”, explicou.
Mapeamento da agrobiodiversidade – O trabalho de conservação das sementes crioulas no Semiárido baiano pela ARCAS, SASOP e MPA não começa agora. Ao longo de mais de três década, organizações da sociedade civil que atuam na região vêm desenvolvendo iniciativas voltadas à valorização da agrobiodiversidade, muitas delas apoiadas por projetos de cooperação internacional e programas financiados pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA).
Essas experiências têm contribuído para mapear a diversidade de sementes presentes nas comunidades, formar guardiões e guardiãs de sementes e fortalecer casas e bancos comunitários, ampliando redes locais de conservação e circulação de variedades tradicionais.
Ao mesmo tempo, os diagnósticos realizados ao longo desses anos também evidenciam desafios persistentes, como a perda de variedades tradicionais em alguns territórios. “Havia uma variedade de milho cultivada há cerca de 90 anos em uma comunidade que foi perdida após contaminação por transgênicos”, relatou Adriana.
Mesmo diante dessas perdas, o histórico de trabalho com as comunidades demonstra que existe um acúmulo importante de conhecimento, organização e experiências no estado. Para as organizações envolvidas, o Raízes Agroecológicas representa a continuidade e o fortalecimento de um processo que já vem sendo construído há anos, trazendo novas perspectivas para ampliar a diversidade de sementes e fortalecer a agrobiodiversidade no Semiárido do Nordeste.
Corredores agroecológicos e recuperação de variedades – Uma das estratégias centrais do projeto é a implementação de corredores agroecológicos. Na Bahia, estão previstos inicialmente 26 corredores, que irão funcionar como espaços de experimentação e multiplicação de sementes crioulas.
Esses corredores organizam o plantio em faixas intercaladas de cultivos alimentares, como milho e feijão, e plantas de adubação verde, como crotalária, feijão-de-porco e guandu, fortalecendo o sistema produtivo e aumentando a diversidade no campo.
Nesse sentido, Altair explicou que o diagnóstico da agrobiodiversidade é fundamental para orientar essas ações. “O diagnóstico traz informações importantes para o resgate das espécies. Precisamos priorizar a diversidade, porque ela é a base dos corredores agroecológicos”, afirmou. Segundo Altair, esses corredores podem contribuir tanto para aumentar a produtividade dos sistemas agrícolas quanto para enfrentar a erosão genética, a partir das prioridades e conhecimentos definidos pelas comunidades.
Já Cristiane destaca que o diagnóstico da agrobiodiversidade tem como objetivo gerar informações sobre “a diversidade de espécies, os diferentes usos das plantas e a variedade de sistemas de cultivo e ambientes presentes nas comunidades”. Segundo ela, esses elementos são fundamentais para orientar o planejamento das ações de recuperação e ampliação da agrobiodiversidade nos territórios.
O projeto também promove a implementação de ensaios participativos com variedades de milho, entre elas El Dorado, Taquaral, Ribeirão, Camponesa, Preto e Sol da Manhã. Os experimentos buscam avaliar o desempenho produtivo e a adaptação dessas sementes em sistemas agroecológicos, considerando também a introdução de três variedades locais indicadas pelas próprias comunidades.
Desafio das políticas públicas – Apesar das experiências construídas nos territórios, representantes das organizações alertam para a necessidade de ampliar políticas públicas que apoiem a conservação da diversidade genética de sementes crioulas no Estado.
Adriana destacou que ainda existe um desequilíbrio nos investimentos direcionados ao setor agrícola. Já Carlos Eduardo, do SASOP, também ressaltou as dificuldades enfrentadas pelas organizações e pelas famílias agricultoras: “Fazemos um trabalho de base com famílias agricultoras nos territórios, mas muitas vezes as políticas públicas não têm protegido esses sistemas produtivos”, afirmou.
Nesse contexto, Altair avalia que o Projeto Raízes Agroecológicas pode contribuir para fortalecer a articulação entre diferentes atores: “O projeto pode ser uma forma de fortalecer essas redes sociotécnicas e criar bases para fomentar políticas públicas que valorizem a agrobiodiversidade”, destacou.
Parte desse trabalho também se materializa em iniciativas locais de conservação e manejo de sementes. “Aqui temos variedades crioulas de milho como Cateto, Catingueiro e Landrês. Todavia, as perdas aqui no território se dão muito por conta da contaminação por transgênicos, que tem aumentado bastante, principalmente nas variedades de milho”, contou Hércules, que integra a equipe técnica da ARCAS e atua como coordenador do projeto pelo consórcio. Ele também é responsável pelo acompanhamento de um galpão comunitário que atualmente armazena mais de 200 toneladas de sementes crioulas de feijão e milho da região.
Esperança para as comunidades – Para muitas famílias agricultoras, o trabalho com sementes crioulas também carrega um forte significado cultural e histórico. José Renato, secretário da associação ARCAS, relatou a emoção de participar das atividades do projeto após saber da perda de uma variedade cultivada por sua família.
“Fiquei muito triste quando disseram que a semente da minha família tinha sido perdida, o milho Catetão. E essa esperança se materializa aqui hoje”, disse.
Ele também destacou a importância do reconhecimento das comunidades do território: “Nosso território sempre foi visto como um lugar de baixo IDH e com dificuldade de acessar políticas públicas. Vejo esse projeto como uma forma de fechar com chave de ouro o trabalho que fazemos há anos nas comunidades e de dar esperança para quem está na base”, afirmou.
Próximos passos – As sócias do projeto na Bahia se preparam para a implementação dos primeiros corredores agroecológicos e dos ensaios participativos com variedades de milho, que ainda serão definidas pelas comunidades.
Também estão previstos intercâmbios entre agricultores e agricultoras, além da elaboração de materiais técnicos e conteúdo de formação voltados à gestão do conhecimento e à incidência em políticas públicas.
As iniciativas buscam fortalecer a conservação das sementes crioulas e ampliar sua contribuição para a segurança alimentar, a diversidade produtiva e a construção de políticas públicas voltadas à agroecologia no Semiárido brasileiro.
Sobre o projeto – Raízes Agroecológicas é financiado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), com recursos da União Europeia, executado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) com a liderança técnica da Embrapa. No Brasil, as ações são implementadas em Sergipe pelo MCP/ACCESE e na Bahia pelo consórcio formado por SASOP, ARCAS e MPA/CPC.
Reportagem: Acsa Macena (Unidade de Gestão do Projeto/ IICA Brasil)
Fotos: https://flic.kr/s/aHBqjCNdyN
Crédito das fotos: Murilo Leide (comunicação da Arcas)