São José, 22 de julho de 2026 (IICA) — Ministros e vice-ministros da agricultura das Américas reunidos em São José, onde participaram das sessões do Comitê Executivo do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), concordaram que a resposta adequada aoschoques externos requer uma maior cooperação regional, um comércio aberto, acelerar a inovação, fortalecer capacidades produtivas e trabalhar em conjunto com o setor privado.
No encontro, as autoridades agrícolas das Américas e especialistas da região analisaram os principais desafios que os sistemas agroalimentares do continente enfrentam e as ações necessárias para fortalecer sua resiliência frente a um cenário global marcado por altos custos de produção, volatilidade energética, tensões geopolíticas, riscos climáticos, doenças transfronteiriças e disrupções comerciais que colocam a capacidade de resposta dos países à prova.
Isso ocorreu no foro “Sistemas agroalimentares resilientes das Américas: redução das vulnerabilidades perante os choques externos”, realizado no âmbito da reunião do Comitê Executivo do IICA, um dos órgãos de governo do organismo hemisférico.
No evento, que permitiu um diálogo técnico-político, Seth Meyer, Diretor do Instituto de Pesquisa sobre Políticas Alimentares e Agrícolas (FAPRI) da Universidade de Missouri, aprofundou-se no contexto global e os choques externos que afetam os sistemas agroalimentares.
Ele explicou que os recentes episódios de volatilidade nos mercados agrícolas internacionais têm seguido um padrão comum: quedas simultâneas na produção mundial, restrições comerciais, conflitos geopolíticos e aumentos nos custos de energia e fertilizantes.
“Hoje, os produtores enfrentam custos de insumos muito elevados, enquanto os preços que recebem por seus produtos se mantêm relativamente baixos. Essa combinação está gerando uma pressão significativa sobre as margens em todo o mundo”, disse Meyer.
Alertou que, embora o abastecimento mundial de alimentos se mantenha relativamente estável, a convergência desses fatores demanda fortalecer a resiliência por meio da inovação, da capacidade de adaptação e de um comércio aberto e transparente.
“O comércio entre as Américas e além delas é uma forma de facilitar a segurança alimentar. Um comércio transparente ajuda a mitigar os preços e a responder melhor aos choques. As Américas dispõem de um sistema de suprimento agrícola extraordinário. Graças à produção nos hemisférios norte e sul, o mundo nunca está muito distante de uma nova grande colheita”, observou, sobre a potência produtiva da região.
Michelle Bekkering, Subsecretária Adjunta de Comércio e Assuntos Agrícolas Exteriores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), observou que, embora não seja possível para os países controlar todas as disrupções, podem antecipá-las melhor, compartilhar soluções e fortalecer cadeias de suprimento resilientes; e ressaltou que é crucial um comércio intrarregional com regras claras, enquanto explicava as prioridades de seu país.
“Como região, juntos podemos prever melhor os riscos. Todos estamos lutando com os altos custos dos insumos. Nos Estados Unidos, a questão dos fertilizantes foi declarada emergência, e a lei de defesa da produção busca uma forma de trabalhar melhor com o setor privado para melhorar a produção própria de fertilizantes; em experiências de produtividade e sustentabilidade, o país focou muito na biotecnologia, na ciência, em inocuidade e sanidade animal e no controle dos riscos biológicos. Os Estados Unidos contam com o IICA, com sua liderança, para aproveitar suas lições aprendidas em detenção, prevenção e solução, para que todos trabalhem em conjunto nesse sentido”, comentou Bekkering.
Julio Duarte Van Humbeck, Embaixador do Paraguai na Costa Rica, destacou que o aumento dos custos de produção afeta principalmente as economias em desenvolvimento e os países sem litoral, considerando indispensável fortalecer a cooperação regional e consolidar mercados abertos.
“Perante o aumento dos custos de produção e as barreiras de acesso aos mercados, é indispensável fortalecer a cooperação regional e as parcerias público-privadas. Compartilhar experiências bem-sucedidas e promover regras claras permitirá construir sistemas agroalimentares mais resilientes e gerar maiores oportunidades para os produtores”, disse, durante a sua intervenção, na qual também repassou experiências bem-sucedidas do Paraguai em agricultura de conservação, circuitos curtos de comercialização, cadeia de laticínios e integração produtiva com parcerias público-privadas.
Nessa mesma linha, Aleksandar Jotanovic, Responsável Sênior de Assuntos Multilaterais Estratégicos da Divisão de Política Comercial do Ministério da Agricultura e Agroalimentação do Canadá, enfatizou que a resiliência começa pelo fortalecimento dos produtores mediante melhores condições de acesso a insumos, tecnologias e informações.
“Todo começa com os agricultores. Eles precisam ter acesso à terra, a insumos, informações, tecnologias e mercados com regras de jogo claras. A ciência e a inovação são essenciais para aumentar a produtividade, fortalecer a segurança alimentar e preparar nossos sistemas agroalimentares para o futuro”, mencionou.
Inovação para aumentar a produtividade e reduzir vulnerabilidades
Outro consenso alcançado pelas autoridades agrícolas da região, durante a reunião do Comitê Executivo do IICA, foi que aumentar a produtividade mediante a inovação tecnológica, a agricultura sustentável e melhores políticas públicas é fundamental para enfrentar esses choques externos.
“A inovação, a agricultura de baixo carbono, os bioinsumos e uma maior articulação com o setor privado são prioridades para fortalecer a resiliência dos sistemas agroalimentares das Américas. O Brasil está disposto a compartilhar sua experiência e trabalhar com os países do hemisfério para enfrentar em conjunto os desafios da segurança alimentar, energética e climática”, afirmou Cleber Soares, Vice-Ministro da Agricultura e Pecuária do Brasil.
Fernando Vargas, Vice-Ministro da Agricultura e Pecuária da Costa Rica, considerou que a “tecnologia é fundamental para produzir mais, com maior competitividade, menores custos e menos insumos”. Ele observou que a “agricultura inteligente, o sensoriamento, as plataformas digitais, a análise de informações e os bioinsumos podem aumentar a produtividade e ajudar a atrair os jovens para o setor agropecuário”.
Raquel Solís, Vice-Ministra de Desenvolvimento Produtivo Agropecuário do Equador, comentou sobre a política pública “Mãos ao Campo” de seu país, apoiada pelo IICA, como um roteiro para produtividade, mercados, sustentabilidade, inovação, agricultura familiar, financiamento e assistência técnica. Além disso, apoiou a promoção regional dos bioinsumos, acompanhada por estruturas regulatórias que assegurem a qualidade e a biossegurança.
“A resiliência dos sistemas agroalimentares não depende unicamente de aumentar a produção; requer instituições sólidas, cooperação internacional, inovação permanente, serviços fitossanitários fortes e mercados abertos baseados em evidências científicas”, assegurou.
Produtores no centro das políticas públicas
As autoridades também concordaram que a resiliência aos choques externos deve ser construída a partir dos territórios, colocando os produtores no centro das políticas públicas e fortalecendo suas capacidades para enfrentar os riscos.
José Francisco Ordoñez, Subsecretário de Agricultura de Honduras, argumentou que as políticas públicas devem ser traduzidas em resultados concretos mediante uma maior produtividade, geração de emprego, fortalecimento institucional, ampliação da irrigação, monitoramento climático e uma maior associatividade entre produtores.
Víctor Manuel Vanegas Tapia, Chefe de Gabinete da Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural do México, propôs o fortalecimento da gestão regional de riscos mediante sistemas de alerta precoce, intercâmbio de informações e cooperação perante emergências sanitárias, climáticas e de abastecimento, além de promover os bioinsumos e a inovação regulatória.
“O produtor deve estar no centro da cooperação, com capacidades técnicas, acompanhamento em campo e articulação entre governos, centros de pesquisa, setor privado e organismos internacionais”, concluiu Tapia.
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