São José, 23 de julho, 2026 (IICA) — Os países das Américas fortalecerão, com o apoio do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), suas capacidades de antecipação, preparação e articulação regional perante os potenciais impactos do fenômeno El Niño na produção agropecuária e nos sistemas agroalimentares da região.
O apoio do IICA ocorrerá de forma coordenada com cada Estado membro de acordo com suas prioridades nacionais, reconhecendo que cada país lidera e executa suas próprias políticas, planos e mecanismos de preparação e resposta.
Na reunião do Comitê Executivo do IICA, realizada em São José, ministros, vice-ministros e altas autoridades agrícolas das Américas intercambiaram experiências, compartilharam prioridades nacionais e identificaram oportunidades de cooperação regional para fortalecer a resiliência climática do setor agropecuário.
As autoridades aprovaram uma resolução em que encarregam o IICA de buscar uma resposta articulada com cada país que inclua a atualização e execução de planos de ação; a disponibilização de experiências com resultados positivos; o fortalecimento de uma visão regional sobre os cenários, riscos, demandas e capacidades disponíveis; e a promoção da cooperação Sul-Sul e do intercâmbio de conhecimentos.
A resolução também convida outros organismos internacionais, agências de cooperação, instituições financeiras, o setor privado, a academia e demais parceiros para coordenar esforços e aportar capacidades técnicas e financeiras.
“A resposta perante o El Niño começa antes da emergência, quando as informações e os alertas se transformam em decisões, investimentos e ações para proteger a produção, as receitas e os meios de vida. Atuar a tempo reduz perdas e custos. Para agir em escala, devemos unir ciência, tecnologia, inovação, gestão do risco, proteção social e financiamento. Ninguém pode fazer isso sozinho, precisamos de um roteiro comum, de parcerias mais amplas e recursos à altura do desafio”, explicou Curt Delice, Diretor de Operações e Integração Regional do IICA.
Na reunião do Comitê Executivo, o IICA informou aos ministros e outras autoridades participantes que, nas últimas semanas, as representações do Instituto em cada país do hemisfério têm intensificado o diálogo com os atores do setor agropecuário para conhecer suas prioridades, as ações que já estão desenvolvendo e as áreas que requerem acompanhamento.
Como resultado dessa abordagem, em cerca de 30% dos países já foram identificadas necessidades e solicitações concretas de cooperação técnica vinculadas ao El Niño e se estima que, nos próximos seis meses, possam surgir demandas em aproximadamente 80% dos países.
As prioridades se concentram em três linhas de ação: monitoramento e gestão de riscos; adaptação e recuperação produtiva; e gestão da água e resiliência hídrica.
A primeira contempla aspectos relacionados a alertas precoces, sistemas de informação, monitoramento agroclimático, avaliação de impactos e gestão integral do risco. A segunda abrange o que concerne à agricultura climaticamente inteligente e regenerativa, recuperação de meios de vida, gestão sustentável de solos e soluções baseadas na natureza. Enquanto a terceira está associada à irrigação eficiente, coleta de água, gestão de bacias e infraestrutura e segurança hídrica.
“As informações que os países estão compartilhando nos permite passar de uma leitura geral do risco a uma agenda concreta de cooperação. O desafio agora é transformar essas prioridades em ações antecipatórias, conectar as capacidades que já existem e mobilizar as parcerias e os recursos necessários para proteger a produção agrícola, as receitas e os meios de vida rurais”, observou Hugo Chavarría, Gerente do Programa de Inovação e Bioeconomia do IICA.
Riscos diversos, demandas urgentes de cooperação
No contexto técnico apresentado no Comitê Executivo, destacou-se que o El Niño terá impactos diferentes nas Américas. Seus efeitos variarão segundo a região, o território e os sistemas produtivos. Enquanto algumas regiões podem enfrentar secas, déficit hídrico e temperaturas superiores às médias, outras poderiam registrar chuvas intensas, inundações e deslizamentos.
No oeste e sudoeste dos Estados Unidos, no norte do México, no Corredor Seco Centro-Americano, no Caribe oriental e em setores do altiplano andino e do nordeste do Brasil, os cenários analisados apontam para maiores riscos de calor, chuvas irregulares e escassez de água. Essas condições podem afetar a disponibilidade de irrigação, a pecuária, os cultivos de sequeiro e, especialmente, os pequenos produtores.
Em outras áreas da região Andina e do Cone Sul podem ocorrer precipitações maiores do que o normal, com riscos de inundações, deslizamentos e impactos em cultivos, na infraestrutura e em cadeias produtivas.
“Os impactos do El Niño serão diferenciados entre os países, territórios, cadeias produtivas e tipos de produtor. Em alguns lugares, eles se manifestarão mediante secas, déficit hídrico e maiores temperaturas; em outros, por meio de chuvas intensas, inundações ou deslizamentos. No entanto, os efeitos mais severos se concentrarão onde uma alta exposição coincidir com uma menor capacidade de se antecipar, responder e se recuperar, especialmente entre os pequenos produtores e nos territórios rurais mais vulneráveis”, explicou Chavarría.
Ações articuladas em cada país
“Estamos de acordo com o enfoque proposto pelo IICA quanto ao alerta precoce, à antecipação a eventos, a trabalhar juntos para somar capacidades e responder adequadamente a esses fenômenos climáticos”, mencionou Julio Duarte Van Humbeck, Embaixador do Paraguai na Costa Rica, que compartilhou avanços de seu país em sistemas de informação agrometeorológica, balanço hídrico agrícola, modernização de estações meteorológicas, coordenação interinstitucional e planos de gestão de riscos.
Fernando Vargas, Vice-Ministro da Agricultura e Pecuária da Costa Rica, enfatizou a importância de garantir a segurança alimentar, a disponibilidade de grãos básicos, a cooperação entre países, os mecanismos financeiros e os seguros de colheita como instrumentos que podem ser fortalecidos mediante uma parceria regional.
“Todos os países estão tomando medidas que consideramos ser a melhor forma de diminuir o impacto e promover a disponibilidade de alimentos para garantir a segurança alimentar. Alguns dos nossos países não poderão plantar certos cultivos nas épocas que normalmente são plantados devido ao El Niño, o que aumentaria as perdas; então, a questão dos grãos básicos se torna indispensável, e a cooperação entre os países é fundamental para o intercâmbio de produtos sob regras claras e acessíveis”, explicou.
Cleber Soares, Vice-Ministro da Agricultura e Pecuária do Brasil, apontou: “Este é um tema muito importante para todos. Coloco o MAPA e o Instituto Nacional de Meteorologia — que há dois meses contribuiu, com a Organização Mundial de Meteorologia, para as previsões do El Niño na América Latina e no Caribe — à disposição dos países com necessidades não só de questões de cenários para esse fenômeno, mas, principalmente, para os com riscos climáticos”.
A região não parte do zero. Os países, o IICA e seus parceiros já dispõem de projetos, experiências, tecnologias e capacidades que oferecem uma base sólida para enfrentar os riscos associados ao El Niño. Como parte desse esforço, o Instituto realizou um mapeamento interno da carteira de iniciativas e projetos que está implementando juntamente com os países e identificou 88 vinculados com a resiliência climática, a gestão do risco e a adaptação da agricultura, dos quais 25 têm uma contribuição direta à preparação, adaptação produtiva, proteção dos meios de vida e recuperação perante os impactos do El Niño.
A partir dessa base, o IICA propôs avançar em um roteiro que permita passar da antecipação à ação. O primeiro passo é se preparar antes que os impactos ocorram, utilizando evidências científicas, análises de riscos, informações sobre o clima e sistemas de alerta precoce para orientar decisões oportunas. O segundo consiste em fortalecer as capacidades e iniciativas que já estão em andamento e conectá-las melhor com as prioridades nacionais, territoriais e produtivas.
O roteiro também propõe identificar e difundir tecnologias, metodologias e soluções que já demonstraram resultados positivos, adaptando-as às condições de outros países e territórios. Por fim, propõe articular uma parceria mais ampla entre governos, organismos técnicos, instituições financeiras, centros de pesquisa, setor privado e organizações de produtores, a fim de somar capacidades, ampliar a cooperação técnica e mobilizar os recursos necessários para responder à magnitude do desafio.
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