Carlos Ernesto Rodríguez Gómez, chefe de inteligência dos Fideicomissos Instituídos em Relação com a Agricultura (FIRA).
Tapachula, México, 8 de maio de 2026 (IICA) – Atrás de muitos dos debates atuais sobre a agricultura tropical (produtividade, sustentabilidade, inovação), há uma variável que começa a ganhar cada vez mais peso, porém não sempre esteja no primeiro plano: o financiamento. Como é designado, quais incentivos gera e sob quais condições chega ao produtor são perguntas que se tornam centrais.
Este foi um dos eixos que atravessou o encontro sobre agricultura tropical realizado recentemente em Tapachula, estado de Chiapas, onde especialistas e atores do setor analisaram não somente os desafios de produção, mas também as condições econômicas que podem acelerar, ou frear, as mudanças no terreno. O encontro, chamado Agricultura Tropical Sustentável, Inclusiva e Competitiva: Rota Crítica para o México e as Américas, foi organizado pelo Governo do Estado de Chiapas e sua Secretaria do Campo, junto com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) e o Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino (CATIE).
Atrás dos conceitos como resiliência e sustentabilidade, começa a se formar uma mudança mais profunda, que atravessa o sistema financeiro. Não se trata somente de produzir mais ou melhor, mas de mostrar como se produz, com que impacto e sob quais condições.
“O desafio é produzir com resiliência, mostrar sustentabilidade e capturar maior valor do mercado”, declarou Carlos Ernesto Rodríguez Gómez, chefe de inteligência dos Fideicomissos Instituídos em Relação com a Agricultura (FIRA), ao resumir a nova situação que o setor enfrenta.
Essa mudança não é menor. Segundo explicou Rodríguez Gómez, os sistemas financeiros estão começando a incorporar variáveis ambientas nas suas avaliações de risco, o que modifica a forma em que são designados os créditos. A degradação dos solos, por exemplo, já não é somente um problema agronômico: começa a se ver refletida como uma perda de valor nos ativos de produção.
“Terras degradadas estão sendo vistas como de alto risco”, advertiu o especialista dos FIRA, ao sinalizar que esses fatores começam a impactar os balanços e as decisões de financiamento.
Neste novo cenário, um dos conceitos que ganha centralidade é a rastreabilidade. Não é suficiente somente adotar práticas sustentáveis: é necessário poder medir, verificar e traduzir elas em informações efetivas para o sistema financeiro e os mercados.
“A sustentabilidade tem que ser comprovável”, insistiu Rodriguez Gómez, ao antecipar uma tendência que já é consolidada nos mercados como o europeu, onde se exige informações detalhadas não só do produtor, mas de toda a cadeia de valor.
Da perspectiva apresentada pelos FIRA no encontro, a competitividade futura do setor dependerá da capacidade de integrar três dimensões: inovação, rastreabilidade e financiamento inteligente.
Além do diagnóstico, Rodríguez Gómez deu detalhes sobre algumas ferramentas concretas que procuram acelerar essa transição. Uma delas é Agritec, uma plataforma que reúne serviços digitais para produtores, de informações climáticas até monitoramento por satélite, e que procura reduzir as barreiras de acesso à inovação.
Outra é a ProSostenible, um esquema que liga o crédito com práticas de produção sustentáveis por meio de incentivos financeiros, permitindo acessar melhores condições de financiamento para aqueles que adotam determinados padrões.
Porém talvez o exemplo mais ilustrativo seja SustantaMás, um programa que procura reduzir o uso de fertilizantes químicos por meio de um esquema de incentivos alinhados com toda a cadeia.
O mecanismo combina compensações para intermediários financeiros, garantias de crédito e provisão de bioinsumos aos produtores, em prol de facilitar a transição sem afetar a rentabilidade no curto prazo, segundo explicou o funcionário.
Os primeiros resultados mostram sinais animadores. Segundo dados apresentados durante o encontro, o modelo já se aplica em uns 20.000 hectares de cultivos como trigo, milho e soja, com reduções de entre 15% e 30% no uso de fertilizantes.
Um dos pontos centrais do foco é que não se limita ao produtor, mas que envolve toda a cadeia de valor. A lógica, segundo foi explicada na apresentação, é que a transformação somente pode escalar se os incentivos estão alinhados entre os que produzem, financiam e compram.
Isso implica trabalhar na articulação de cadeias, assegurar mercados e gerar condições que reduzem a incerteza. Também supõe mudar a perspectiva sobre a rentabilidade, incorporando a estabilidade de longo prazo como fator crítico, especialmente nos sistemas mais expostos aos riscos climáticos.
Nesta estrutura, começam a aparecer ferramentas como títulos verdes, créditos associados com métricas ambientais ou mercados de carbono, que poderiam abrir novas oportunidades para o setor.
O caso apresentado pelos FIRA mostra que a transformação da agricultura tropical não depende somente de novas tecnologias ou práticas de produção. Também envolve mudanças nos mecanismos que sustentam economicamente o sistema.
Neste sentido, a sustentabilidade começa a se posicionar não somente com um objetivo, mas como uma condição crescente para acessar financiamento e mercados.
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