Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura

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A agricultura tropical já tem soluções: o desafio é levá-las ao produtor e convertê-las em negócios

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Diego Montenegro, Representante do IICA no México; Karen Montiel, especialista do IICA: e Jeimar Tapasco, cientista principal da Parceria Bioversity International e o CIAT.

Tapachula, México, 8 de maio de 2026 (IICA) — A agricultura tropical dispõe de um amplo conjunto de soluções comprovadas, conhecimento científico acumulado e experiências bem-sucedidas em diversos territórios. No entanto, o verdadeiro desafio continua sendo fazer com que essas ferramentas sejam adotadas em escala e a cada contexto e, sobretudo, traduzam-se em sistemas produtivos sustentáveis, rentáveis e inclusivos.

Essa foi uma das conclusões do recente encontro sobre agricultura tropical que foi realizado em Tapachula, estado mexicano de Chiapas, no qual, durante três dias, especialistas, funcionários e produtores discutiram como transformar um setor-chave para a segurança alimentar.

Entre todas as ideias desenvolvidas no encontro, houve uma conclusão que se repetiu com clareza: o problema já não é a falta de tecnologia, mas como fazer com que essa tecnologia chegue ao produtor e funcione na prática.

Em um painel dedicado à cooperação e à inovação, especialistas de organismos internacionais, centros de pesquisa e entidades públicas concordaram que o hiato não está mais na geração de conhecimento, mas na implementação.

“Já existem as tecnologias, elas já estão comprovadas, mas não estão chegando ao produtor”, alertou Karen Montiel, especialista do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), ao descrever o ponto de partida da Plataforma Hemisférica de Agricultura Tropical. Conforme explicou, o objetivo dessa iniciativa é precisamente “fomentar a colaboração interinstitucional” para escalar soluções, acelerar sua adoção e gerar impacto nos territórios.

A plataforma, lançada em 2025 com instituições como o Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino (CATIE), a Parceria Bioversity-CIAT, o Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (CIMMYT) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), busca romper uma dinâmica histórica: a fragmentação de esforços entre organismos que geram conhecimento, mas que muitas vezes trabalham de maneira isolada.

“Não vamos mais trabalhar sozinhos”, propôs Montiel, ao propor a necessidade de articular capacidades e aproveitar as vantagens comparativas de cada instituição segundo o cultivo, território ou problema a resolver.

O desafio, porém, não é só coordenar instituições. Também implica repensar como as intervenções nos territórios são elaboradas e implementadas. Nesse sentido, diversos especialistas concordaram que não basta “transferir tecnologia” dos centros de pesquisa para o campo.

“As soluções para esse campo não estão aqui”, propôs Jeimar Tapasco, da Parceria Bioversity-CIAT. “Aqui há ideias e experiências, mas é preciso haver uma discussão com aqueles que conhecem o contexto local para definir que o funciona ou não”.

Esse olhar introduz uma mudança relevante: passar de um modelo de inovação linear — onde o conhecimento flui em uma só direção —, para um mais dinâmico, baseado na construção conjunta com produtores, organizações locais e instituições públicas.

Nessa mesma linha, o enfoque territorial aparece como um elemento-chave. No CATIE, por exemplo, foi proposto priorizar intervenções a partir de bacias hidrográficas, integrando variáveis como disponibilidade de água, sistemas produtivos e condições ambientais. Pensar o território unido pela água permite priorizar com um critério mais integral, observou-se no painel.

Além disso, foi destacada a importância de combinar tecnologias — como sistemas silvipastoris, gestão de solos ou colheita de água — em função de cada contexto, em vez de promover soluções isoladas.

Outro dos consensos foi que a adoção tecnológica depende, em grande parte, de fatores que vão além da inovação em si. A extensão rural, a capacitação e o acesso a informações são condições necessárias para que as soluções alcancem uma grande escala.

No CIMMYT, enfatizou-se a necessidade de “tropicalizar” as tecnologias disponíveis, ou seja, adaptá-las às condições específicas dos trópicos, e de fortalecer a capacitação no nível técnico e de campo. “Não só no âmbito acadêmico, mas também de extensionistas e produtores”, observou-se.

Paralelamente, a digitalização aparece como uma ferramenta-chave para democratizar o acesso ao conhecimento. Plataformas de dados, sistemas de informação geográfica e ferramentas digitais podem facilitar a tomada de decisões, desde que as informações sejam acessíveis e compreensíveis para os que estão no território.

O esforço é juntar as informações e prepará-las em um mecanismo digerível, evitando que o conhecimento fique restrito a publicações científicas ou âmbitos especializados.

Embora o foco do painel esteja na articulação técnica e institucional, as intervenções do público e dos próprios especialistas colocaram na mesa um tema inevitável: a sustentabilidade da agricultura tropical também depende de sua rentabilidade.

“A agricultura é um negócio, e precisa gerar receitas para o sustento das famílias”, observou um dos participantes, ao questionar a falta de ênfase em aspectos como a comercialização e o acesso a mercados.

Em resposta, os palestrantes reconheceram que a agenda ainda tem áreas a serem fortalecidas, especialmente no que diz respeito à inovação financeira e a mecanismos que conectem a produção sustentável com oportunidades concretas de mercado.

Montiel concordou que esse é um aspecto fundamental a ser desenvolvido: “Talvez, dentro da priorização de temas, tenha faltado a inovação financeira, o acesso aos mercados”. Nesse sentido, propôs a necessidade de avançar para esquemas de financiamento que reconheçam o valor de práticas sustentáveis, inclusive modelos que remunerem resultados em biodiversidade ou serviços ecossistêmicos.

Mais do que oferecer respostas fechadas, o painel deixou claro que a construção de uma rota para a agricultura tropical é um processo em evolução, que requer articulação, aprendizado e adaptação contínua.

A Plataforma Hemisférica aparece, nesse contexto, como uma tentativa de ordenar esse processo, gerar massa crítica e acelerar a transformação. Mas seu êxito dependerá, em última instância, de sua capacidade para traduzir o conhecimento existente em soluções concretas, viáveis e escaláveis.

O desafio não é menor: conectar ciência, território, financiamento e mercado em sistemas complexos e diversos. Mas também, conforme concordaram os participantes, é uma oportunidade única para reposicionar a agricultura tropical como um motor de desenvolvimento sustentável nas Américas.

Mais informação:
Gerência de Comunicação Institucional do IICA.
comunicacion.institucional@iica.int

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