Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura

Agricultura

Expande-se no Brasil o modelo que converte os agricultores em “guardiões” da água

Tiempo de lectura: 3 mins.

Produtores rurais brasileiros ampliam seu papel na proteção da água com pagamentos por serviços ambientais e restauração de bacias.

Brasília, 17 de junho de 2026 (IICA). Em um cenário global cada vez mais marcado por secas, erosão e pressão sobre as fontes de água, o Brasil aposta em um aliado silencioso e muitas vezes subestimado: o agricultor. Por meio de projetos que combinam conservação ambiental, recuperação de microbacias e gestão sustentável do solo, produtores rurais começaram a se converter em verdadeiros “guardiões” da água, sob uma estratégia que visa proteger um dos recursos mais sensíveis para a vida e a produção de alimentos.

Por trás dessa transformação está o programa brasileiro Produtor de Água, uma iniciativa promovida pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) com apoio do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), que nos últimos 25 anos articulou produtores rurais, municípios e empresas de saneamento em torno de um objetivo comum: proteger bacias hidrográficas mediante práticas de restauração ambiental e gestão sustentável do território.

Produtores rurais e segurança hídrica

O modelo combina uma lógica ambiental com outra, ecológica. Por meio do chamado Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), produtores rurais recebem incentivos financeiros por preservar nascentes, recuperar vegetação nativa, reduzir processos de erosão ou implementar práticas que ajudem a conservar a água e o solo dentro de suas propriedades. A ideia por trás do esquema é que aqueles que protegem recursos estratégicos para toda a sociedade devem também ser compensados por esse trabalho.

Ao longo desses anos, o programa já promoveu mais de 70 projetos distribuídos em diversas regiões hidrográficas do Brasil, com investimentos superiores a R$144,4 milhões. Segundo dados oficiais, as iniciativas permitiram conservar mais de 22.800 hectares de vegetação, recuperar outros 4.180 hectares degradados e atingir mais de 27 milhões de pessoas beneficiadas de maneira direta. Além disso, mais de 1.200 produtores rurais receberam pagamentos vinculados a serviços ambientais associados à proteção de bacias e recursos hídricos.

Em muitas das regiões onde o programa funciona, as transformações começam com mudanças pequenas e muito concretas. Um alambrado ao redor de uma nascente para evitar a entrada do gado. Um terraço construído em terreno inclinado para frear a erosão. Um caminho rural redesenhado para que a chuva não arrastre toneladas de terra para os córregos. Ou uma “barraginha”, pequenos reservatórios escavados no solo que ajudam a infiltrar a água da chuva e recargar lentamente os lençóis de água subterrâneos.

Mas o impacto do programa não se limita somente às obras visíveis. Também implica uma mudança gradual na relação entre produtores rurais, municípios e usuários urbanos da água, em um contexto em que as secas prolongadas e os eventos climáticos extremos começaram a pressionar cada vez mais as fontes de abastecimento.

Segundo descreve a ANA em um relatório completo que pode ser consultado no reservatório de publicações do IICA, um dos maiores desafios foi construir confiança e sustentá-la no decorrer do tempo junto às comunidades rurais envolvidas em cada projeto.

O programa promove mudanças na relação entre produtores, municípios e usuários da água perante a crescente pressão climática sobre as fontes.

Microbacias, solo e restauração ambiental

Por exemplo, em Capitólio, no estado de Minas Gerais, no sudeste do Brasil, um dos projetos focou na bacia de Córrego Ambrósio, utilizada para abastecimento urbano. Ali, produtores rurais começaram a implementar o cercamento de áreas de preservação, a recuperação de vegetação nativa, a construção de pequenas estruturas de infiltração e melhorias em estradas rurais para reduzir a erosão e a sedimentação.

O objetivo era relativamente simples, embora ambicioso: evitar que a deterioração do solo terminasse afetando a disponibilidade e a qualidade da água que chega à população.

Como ocorre em outras iniciativas do programa, os produtores que aderem voluntariamente ao esquema podem ter acesso a pagamentos por serviços ambientais associados às melhorias realizadas em suas propriedades.

Conforme explicado pelo relatório, muitas dessas ações fazem parte das chamadas “soluções baseadas na natureza”, uma estratégia que busca fortalecer a resiliência das bacias perante secas, chuvas extremas e outros eventos climáticos cada vez mais frequentes em diversas regiões do Brasil.

Em Minas Gerais ocorreu outro dos casos destacados no relatório. “O município de Ubá viveu eventos extremos relacionados à questão hídrica. Durante a seca, o abastecimento público de água se via prejudicado e, no período de chuvas, sofria destruição, inundações e alagamentos que geravam diversos prejuízos socioeconômicos”, descreve o documento.

Perante essa situação, o município avançou com práticas de conservação de água e solo associadas ao sistema de Pagamento por Serviços Ambientais. Entre os anos 2018 e 2024, mais de 156 produtores rurais receberam pagamentos vinculados a ações de revitalização, conservação e proteção ambiental sobre uma área de cerca de 945 hectares. Além do incentivo econômico, os produtores participantes também tiveram acesso à assistência técnica orientada ao desenvolvimento sustentável da agricultura familiar.

Segundo o relatório, em várias das propriedades onde ocorreram intervenções começou a ser observada uma melhoria na disponibilidade hídrica e um aumento na quantidade de nascentes de água ativas dentro das áreas recuperadas.

O modelo aposta em complementar a infraestrutura hídrica com ações no território rural, como a restauração de microbacias e a proteção de nascentes.

Uma nova forma de pensar a água

Além dos resultados pontuais em cada município, o programa também reflete uma mudança mais ampla na maneira de pensar a gestão hídrica. Durante décadas, grande parte das políticas vinculadas à água estiveram associadas principalmente a grandes obras de infraestrutura, como represas, canais ou sistemas de transposição. Esse modelo brasileiro aposta, em vez disso, em complementar essas ferramentas com uma rede dispersa de pequenas intervenções sobre o território rural: recuperação de vegetação, gestão de solos, proteção de nascentes e restauração de microbacias.

Em um contexto regional cada vez mais atravessado por secas prolongadas, chuvas extremas e degradação ambiental, o relatório propõe que essas práticas podem funcionar como uma forma de “infraestrutura natural”, ajudando a melhorar infiltração, reduzir erosão e aumentar a resiliência das bacias perante eventos climáticos críticos. O desafio, reconhecem os próprios promotores do programa, passa agora por ampliar a escala das iniciativas e sustentar fontes de financiamento de longo prazo, especialmente em regiões brasileiras com maior estresse hídrico.

O trabalho de sistematização divulgado juntamente com o IICA também pode servir como referência para outros países da América Latina que enfrentam problemas semelhantes de degradação de bacias, perda de solo e pressão sobre as fontes de água.

A experiência brasileira também deixa uma conclusão menos visível, mas cada vez mais relevante: a segurança hídrica não depende somente de grandes obras ou investimentos urbanos. Muitas vezes começa muito antes, em pequenos produtores rurais que, quase silenciosamente, terminam se convertendo em verdadeiros “guardiões” da água.

Mais informações:

comunicacion.institucional@iica.int

Relatório: Programa Produtor de Água. Resultados e perspectivas

Compartilhar

Notícias relacionadas

Cidade do México

junho 17, 2026

O IICA impulsiona no México modelos pecuários resilientes e acompanha famílias produtoras na transição para aumentar a sustentabilidade

Com o projeto SAbERES, o IICA acompanha famílias produtoras na implementação de práticas de adaptação baseada em ecossistemas em territórios rurais de Chiapas, Jalisco, Michoacan e Tabasco.

Tiempo de lectura: 3mins

Montreal, Canadá

junho 15, 2026

No Canadá, o IICA e a Coalizão Pan-Americana de Biocombustíveis Líquidos (CPBIO) destacam o potencial da agricultura das Américas para promover os combustíveis sustentáveis de aviação

Em um encontro com autoridades governamentais, organismos internacionais, representantes da indústria aeronáutica, especialistas técnicos e atores do setor energético global, o IICA e a Coalizão Pan-Americana de Biocombustíveis Líquidos (CPBIO) fizeram um apelo para harmonizar os padrões de sustentabilidade internacionais para medir a pegada de carbono dos biocombustíveis e combustíveis sustentáveis de aviação, bem como para promover incentivos que fomentem novos investimentos.

Tiempo de lectura: 3mins

Público AgriFoodTech

San José, Costa Rica

junho 11, 2026

Com apoio do IICA, é lançada na Costa Rica uma estratégia para acelerar inovações no setor agrícola e com potencial de expansão para o resto das Américas

O Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) e a Agência Promotora do Comércio Exterior da Costa Rica (PROCOMER) reuniram representantes da academia, startups, empresas agroindustriais, fundos de investimento, organismos multilaterais, centros de pesquisa e autoridades governamentais no Innovation Hub: AgriFoodTech, um espaço concebido para articular tecnologia, investimento e indústria e alavancar soluções inovadoras para o setor agrícola com potencial de ampliação na região.

Tiempo de lectura: 3mins