São José, 10 de junho de 2026 (IICA) — O impacto dos atuais conflitos geopolíticos nos sistemas agroalimentares das Américas, em especial o aumento dos preços dos fertilizantes e as disrupções no comércio desse insumo essencial, torna urgente que os países do continente coloquem de lado ações isoladas e, com base no diálogo e na cooperação, unam-se em uma resposta coordenada entre os governos e os diversos atores do setor.
Isso foi indicado por representantes do setor privado — inclusive líderes da área de fertilizantes, insumos, logística e energia — que participaram de um encontro de alto nível convocado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) e que foi liderado pelo Diretor Geral do organismo, Muhammad Ibrahim.
O objetivo foi discutir as implicações do atual contexto em Oriente Médio, que se soma a outros choques geopolíticos e de mercado com consequências globais, especialmente na provisão de insumos fundamentais para a produção agropecuária.
O IICA convocou o debate com a convicção de que é indispensável aprofundar a interação entre o setor público e o setor privado, que desempenha um papel central na produção, distribuição e tomada de decisões ao longo das cadeias de valor agroalimentares.
O Diretor Geral do IICA e Kip Tom, referência do setor agropecuário dos Estados Unidos e Vice-Presidente de Política Agrícola do America First Policy Institute (AFPI), além de ex-embaixador de seu país em organismos internacionais com sede em Roma, abriram a reunião, que foi moderada por Gabriel Carballal, produtor agropecuário uruguaio e Secretário da Global Farmer Network.
Os participantes enfatizaram que, no continente, o setor agropecuário é essencial para o desenvolvimento econômico dos países e para a segurança alimentar global, de modo que é essencial a elaboração de respostas que permitam reduzir vulnerabilidades.
Também destacaram o papel central do IICA, dada sua capacidade de estabelecer nexos com governos, instituições de pesquisa, a academia, a sociedade civil e organismos de financiamento, com o objetivo de promover políticas públicas e investimentos em ferramentas que ajudem os produtores agropecuários a ser mais resilientes perante crises.
Prioridade em agricultores mais vulneráveis
O aumento do preço internacional dos fertilizantes foi indicado como um problema central, mas não o único, uma vez que outras áreas, como energia, transporte e logística, e a questão do comércio também foram identificadas como fonte de preocupação.
Nesse sentido, observou-se a necessidade de encarar respostas de curto, médio e longo prazo.
As primeiras devem se orientar prioritariamente aos pequenos e médios produtores, que são os que têm menos armas para enfrentar a crise. Com um olhar mais amplo, concordou-se que o atual contexto deve ser aproveitado como uma oportunidade para acelerar a transformação baseada em ciência e inovação dos sistemas agroalimentares do continente.
Pelo setor privado, foram dados detalhes sobre as realizações que estão sendo alcançadas no continente no desenvolvimento de bioinsumos e, particularmente, de biofertilizantes, que foram indicados como parte da solução.
Também foi apontada a necessidade de uma maior coordenação entre o setor público e o privado para promover de forma decisiva a transferência de tecnologias para pequenos e médios agricultores, responsáveis na América Latina e no Caribe pela maior parte dos alimentos que são produzidos na região.
A obrigação de gastar mais dinheiro em fertilizantes pode modificar decisões de plantio dos produtores ou levá-los a gastar menos em outros insumos, o que, em última instância, pode gerar a diminuição dos rendimentos e o aumento dos preços dos alimentos, além de impactar a segurança alimentar.
Nesse sentido, a enorme riqueza de recursos naturais foi indicada como um valioso ativo do continente, que já está sendo transformada em oportunidades de desenvolvimento por meio de projetos de bioeconomia que colocam em primeiro plano a inovação e o cuidado com o ambiente.
A região também possui importantes reservas de gás natural, matéria-prima essencial para a produção de fertilizantes nitrogenados, que hoje são importados em sua maior parte e, assim, convertem-se em fonte de exposição dos países aos choques externos.
Parte da mudança de paradigma necessária para reduzir a exposição a situações traumáticas deve ocorrer por meio da harmonização das normativas regionais em temas vinculados ao comércio agrícola, de modo a promover mercados mais abertos na região, concordaram os participantes.
Também foi ressaltada a necessidade de fortalecer os sistemas de informação para melhorar a capacidade dos países para antecipar crises.
Com a convocação, o organismo hemisférico reafirmou sua vontade e seu compromisso de liderar os esforços de coordenação entre os diversos atores das Américas, com a missão de mitigar impactos sobre os países e suas populações das crises múltiplas e aproveitar as oportunidades que se apresentam.
Esse diálogo com o setor privado foi antecedido por outro, promovido recentemente pelo IICA, no qual ministros e altos funcionários da agricultura das Américas realizaram um apelo para melhorar a coordenação entre os países com o objetivo de reduzir as vulnerabilidades dos sistemas agroalimentares e fortalecer o papel do continente como principal fornecedor de alimentos do mundo.
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