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Da erosão à colheita: uma experiência de recuperação de solos e diversificação produtiva no sequeiro costeiro do Chile

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IICA trabalha com a Cooperativa Agrícola Camponesa Cuncumén em um propriedade de 17,3 hectares, com financiamento da FIA, em um projeto chamado Diversificação silvoagropecuária como metodologia e estratégia produtiva e otimização de irrigação na propriedade, na área de conversão de sequeiro em Cuncumén, província de San Antonio.

Valparaíso, Chile, 12 de maio de 2026 (IICA) — Em Cuncumén, uma zona de sequeiro costeiro onde cada chuva conta e cada verão põe à prova a sobrevivência produtiva, uma propriedade de 17 hectares se transformou em algo mais do que um campo: um espaço onde recuperar o solo, reter a água e diversificar já não é uma ideia, mas uma prática concreta.

Cuncumén é uma localidade rural localizada na província de San Antonio, região de Valparaíso, na zona central do Chile, aproximadamente a 100 quilômetros ao sudoeste de Santiago, a capital do país. Trata-se de uma zona de sequeiro costeiro, ou seja, uma faixa territorial que depende quase exclusivamente das chuvas para a sua agricultura, sem acesso à irrigação permanente e que, nas últimas décadas, enfrentou uma seca prolongada.

Nas zonas de sequeiro da América Latina, o barro desce a cada chuva, a represa chega vazia ao verão e o solo perde profundidade ano após ano. Para as famílias camponesas que dependem dessa terra, não é um problema do futuro. É o problema de hoje.

Partindo desse ponto, o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) trabalha com a Cooperativa Agrícola Camponesa Cuncumén em um propriedade de 17,3 hectares, com financiamento da Fundação para a Inovação Agrária (FIA), em um projeto chamado Diversificação silvoagropecuária como metodologia e estratégia produtiva e otimização de irrigação na propriedade, na área de conversão de sequeiro em Cuncumén, província de San Antonio.

Há mais de dois anos, o projeto está implementando uma unidade demonstrativa de diversificação silvoagropecuária que combina conservação do solo, gestão da água e produção sustentável. Nesse tempo, foi sendo construída uma experiência concreta, com resultados visíveis e uma rede crescente de atores que se uniu ao longo do caminho.

“Em Cuncumén estamos vendo que é possível recuperar solos degradados, gerir a água da chuva e diversificar a produção no sequeiro, quando há disposição coletiva e acompanhamento técnico”, afirma Hernán Chiriboga, Representante do IICA no Chile. “Não é uma fórmula mágica. É um trabalho constante, parcerias construídas com paciência e a confiança de que a agricultura familiar camponesa tem futuro nesses territórios”.

Na propriedade de Cuncumén foram construídos diques de controle de ravinas com materiais locais, postes impregnados, sacos de terra, membranas plásticas, combinados com plantações de chagual para estabilizar as encostas.

A construção de uma rede

O projeto começou como uma parceria entre o IICA, a cooperativa e a FIA. Com o tempo, outros atores foram encontrando nesse espaço um lugar onde seu próprio trabalho também fazia sentido. Nesse processo, o IICA atua como articulador técnico e facilitador de capacidades em campo.

Atualmente também participam a CONAF (Corporação Nacional Florestal do Chile) e o INIA (Instituto de Pesquisas Agropecuárias), com provisão de plantas nativas para a restauração florestal. Bem como o Instituto Florestal (INFOR), com a elaboração e implementação da unidade silvipastoril; o Município de San Antonio e a PRODESAL, no vínculo com agricultores locais e acesso a feiras; e o INDAP (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário), por meio de sua Mesa Rural regional. 

Outros organismos presentes são o programa GEF-FAO de Restauração de Paisagens, que utilizou a propriedade como espaço de capacitação para produtoras rurais da região de Valparaíso; e as universidades Federico Santa María e de Concepção, com pilotos de tecnologia de desidratação e melhoramento do solo com biocarvão. O INAPI, por sua vez, trabalha com a cooperativa na certificação do Vale Limpo de Cuncumén, e o PROCHILE iniciou um processo para apoiar a exportação de nozes dos cooperados.

Cada uma dessas instituições chegou por razões diversas. O que as mantém vinculadas é que, na propriedade, há algo concreto a ver, aprender e replicar.

Reter a água e o solo antes que se percam

O núcleo técnico do projeto são as Obras de Conservação de Água e de Solo, conhecidas como OCAS. A lógica é simples: no sequeiro, a água da chuva tende a escorrer ladeira abaixo, arrastrando o solo consigo. As OCAS buscam interceptar esse processo.

Na propriedade de Cuncumén foram construídos diques de controle de ravinas com materiais locais — postes impregnados, sacos de terra, membranas plásticas —, combinados com plantações de chagual (Puya chilensis, uma bromélia nativa do Chile central) para estabilizar as encostas. Foram instalados feixes de galhos que reduzem a erosão laminar. Foram traçados canais de desvio seguindo curvas de nível — usando um agronível em forma de “A” fabricado na própria propriedade — que distribuem a água ao longo da encosta em vez de deixá-la se concentrar. Foram construídas meias-luas que retêm a água em volta de cada planta florestal e implementado um sistema de coleta de água da chuva que conduz o deflúvio da encosta superior até um reservatório de armazenamento da propriedade.

Após as chuvas de inverno de 2025, os diques acumularam solo de maneira bem-sucedida. As valas de infiltração retêm mais de seis metros cúbicos de água por evento de precipitação. As meias-luas permitem que as plantas sobrevivam ao verão sem irrigação mecanizada.

A maior parte dessas obras foi construída com materiais do entorno e trabalho local, sob acompanhamento técnico da equipe do IICA e de instituições como CONAF, INFOR e INIA.

Há mais de dois anos, o projeto está implementando uma unidade demonstrativa de diversificação silvoagropecuária que combina conservação do solo, gestão da água e produção sustentável.

Uma propriedade, múltiplos usos

Sobre esses solos em recuperação, o projeto foi implementando, módulo a módulo, uma proposta de uso múltiplo da terra. Hoje a propriedade integra nogueiras e amendoeiras, cítricos com produção artesanal de limoncello, hortaliças ao ar livre e em estufa, flores de corte (como lírios, limonium, gladíolos e crisântemos), uma cortina quebra-vento de quillay e chagual, um módulo silvipastoril com gado ovino e caprino, produção de composto, húmus e biofertilizantes e reflorestamento com espécies nativas da floresta esclerófila chilena.

Uma das descobertas do período foi o uso do espinheiro (Vachellia caven), árvore nativa do sequeiro chileno que historicamente é visto como erva daninha ou planta invasora de pastagens. O projeto documentou que seus frutos — as quirincas — podem ser processados para obter um suplemento alimentar de boa palatabilidade para o gado caprino e ovino, com rendimento de até 707 quilos por hectare de fruto inteiro triturado. Esse tipo de descoberta tem relevância direta para zonas áridas e semiáridas de outros países do continente onde existem espécies nativas subutilizadas com potencial forrageiro semelhante.

A cooperativa já começou a oferecer serviços concretos a agricultores locais: assistência em irrigação intrapropriedades, trituração de galhos, venda de húmus e biocarvão e comercialização de flores e hortaliças.

Um espaço aberto para aprender e visitar

A propriedade tem uma vocação explícita para ser um lugar onde se possa ver e entender. Em 2025 recebeu produtoras da Mesa da Mulher Rural de Valparaíso, estudantes da DUOC-UC e do Liceo Agrícola de Cuncumén e a comunidade local na Feira Costumbrista. Em cada visita, os participantes percorrem em campo os módulos produtivos, as OCAS, o sistema de irrigação e coleta de água e a unidade de bioinsumos.

Além disso, o projeto elaborou cartilhas técnicas sobre cada módulo, disponíveis para que os agricultores da região possam rever e avaliar se alguma prática serve para a sua própria propriedade.

O que torna interessante essa experiência não é que ela seja um modelo acabado. É que demonstra que em terras de sequeiro com solos degradados e alta fragilidade hídrica é possível recuperar condições produtivas, diversificar receitas e fazer isso com baixo custo tecnológico e em parceria com atores locais. É uma resposta concreta a perguntas que muitas comunidades rurais do continente estão se fazendo hoje.

O IICA acompanha processos como o de Cuncumén com o propósito de que o conhecimento gerado em um território possa chegar a outros. Essa experiência mostra que, quando há acompanhamento técnico constante, parcerias construídas com paciência e confiança na agricultura familiar camponesa, os resultados concretos são possíveis: solos que se recuperam, água que permanece retida, famílias que permanecem em seus territórios e produzem.

Para a Fundação para a Inovação Agrária, apoiar a criação e estruturação desse centro demonstrativo responde diretamente à sua missão: promover, por meio da inovação territorial, soluções concretas aos problemas de perda de capacidade produtiva dos solos, recuperação do abandono produtivo e manutenção da biodiversidade associada. Esses fatores têm um impacto direto na produtividade agrícola, na permanência dos agricultores em seus territórios e na economia local e na segurança alimentar.

Andrés Gálmez Commentz, da FIA, destaca o que esse tipo de projeto significa para os que vivem e trabalham nesses territórios: agricultores que encontram soluções rentáveis para problemas concretos, comunidades que recuperam sua capacidade produtiva e famílias que podem ficar no campo. Ressalta também que a atual disponibilidade de irrigação em áreas históricas de sequeiro — submetidas a uma seca prolongada — abriu uma oportunidade real para aqueles que dependiam exclusivamente das chuvas, e isso gerou um polo de interesse institucional que fortalece a biodiversidade produtiva e a sustentabilidade do sistema em seu conjunto.

“O trabalho desenvolvido pelo IICA tem se mostrado fundamental, posto que, por meio desse projeto, estão sendo dadas respostas locais a problemas locais, incorporando muitos agricultores, com soluções rentáveis que também são perfeitamente extrapoláveis para outras regiões do país”, destacou Gálmez Commentz.

O projeto tem demonstrado que em terras de sequeiro com solos degradados e alta fragilidade hídrica é possível recuperar condições produtivas, diversificar receitas e fazer isso com baixo custo tecnológico e em parceria com atores locais.

Mais informação:
Gerência de Comunicação Institucional do IICA.
comunicacion.institucional@iica.int

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